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Execução ao vivo nos EUA: fuzilamento de Nidal Hasan vira espetáculo histórico

By Régis Andrade
10 de outubro de 2026 7 Min Read
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Primeira execução pública em 90 anos será transmitida ao vivo; Defesa confirma fuzilamento de ex-major nos EUA para 3/12

O governo dos Estados Unidos confirmou que a execução de Nidal Malik Hasan, ex-major do Exército condenado pelo ataque que matou 13 pessoas na base militar de Fort Hood, no Texas, em 2009, será transmitida ao vivo. A decisão, anunciada pelo secretário de Defesa Pete Hegseth, transforma o caso em um marco histórico e reacende um dos debates mais controversos do país sobre a pena de morte. A execução está marcada para 3 de dezembro, por pelotão de fuzilamento, na própria base onde o crime ocorreu.

A confirmação da transmissão ao vivo partiu do Pentágono na quinta-feira (8), após Hegseth declarar que a execução seria pública. Em entrevista ao canal conservador Real America’s Voice, a bordo do porta-aviões USS Abraham Lincoln, o secretário foi direto ao justificar a medida. “Vamos garantir que as pessoas possam assistir, que seja público. Porque as pessoas precisam entender que existem consequências sérias para esse tipo de coisa.” Questionado sobre eventuais pedidos finais do condenado, Hegseth respondeu de forma ríspida: “Não me importo. Vamos vê-lo no dia 3 de dezembro.”

O anúncio inicial havia sido feito na segunda-feira (5) pelo porta-voz do Pentágono, Sean Parnell, que informou que Hegseth havia recomendado a execução por fuzilamento e que o presidente Donald Trump aprovara a decisão. A execução está agendada para 3 de dezembro de 2026, uma quinta-feira, às 13h no horário local, em Fort Hood. A escolha do local e do horário não é casual. Hegseth classificou como “óbvio” que a execução ocorresse na mesma base e em horário próximo ao do ataque original, ocorrido em 5 de novembro de 2009, por volta das 13h30.

O ataque que chocou o país

Na manhã de 5 de novembro de 2009, Nidal Malik Hasan, então major e psiquiatra do Exército, entrou no Centro de Preparação para Soldados de Fort Hood, um prédio médico lotado onde militares aguardavam exames e vacinas antes de serem enviados ao exterior. Portando uma pistola com mira a laser, gritou “Allahu Akbar” — “Deus é o maior”, em árabe — e abriu fogo contra os militares desarmados. O ataque matou 12 soldados da ativa e um militar aposentado, além de ferir outras 32 pessoas. Doze dos mortos e 30 dos feridos eram soldados. Foi o tiroteio mais mortífero já ocorrido em uma instalação militar americana.

As investigações revelaram que Hasan planejou a ação durante semanas. Ele gravou um vídeo em que um vendedor lhe ensinava a trocar o carregador da pistola que compraria e frequentou um estande de tiro nos arredores de Austin para treinar recarga rápida e precisa. Soldados que testemunharam o ataque relataram que a velocidade de recarga de Hasan tornou praticamente impossível interromper o tiroteio. A investigação posterior também determinou que Hasan manteve contatos com o clérigo radical Anwar al-Awlaki, que mais tarde se tornaria uma figura proeminente da Al-Qaeda na Península Arábica.

Hasan ficou paralisado da cintura para baixo após ser atingido pela polícia durante o ataque. Em 2013, foi condenado à morte por unanimidade por um tribunal militar, respondendo por 13 acusações de assassinato premeditado e 32 de tentativa de assassinato. Durante o julgamento, atuou como seu próprio advogado e admitiu ter sido o autor dos disparos, justificando a ação como retaliação às guerras dos EUA no mundo muçulmano. Disse que acreditava estar protegendo os muçulmanos e o Talebã no Afeganistão. Desde então, cumpria pena na prisão militar de Fort Leavenworth, no Kansas.

Contexto histórico e jurídico

A última execução militar nos Estados Unidos ocorreu em 13 de abril de 1961, quando o soldado John Bennett foi enforcado em Fort Leavenworth, condenado por estupro e tentativa de homicídio contra uma menina de 11 anos. Já o último fuzilamento militar aconteceu em 1945, ao final da Segunda Guerra Mundial. No âmbito civil, a última execução pública amplamente registrada no país ocorreu em 1936, no Kentucky, quando Rainey Bethea, um homem negro acusado de estuprar uma mulher branca, foi enforcado diante de uma multidão.

A retomada das execuções federais foi impulsionada pelo governo Trump, que recentemente ampliou os métodos permitidos para crimes federais mais graves, incluindo eletrocussão e asfixia por gás, além do pelotão de fuzilamento. A medida foi adotada em parte devido às dificuldades crescentes em obter substâncias para injeções letais, método que tem apresentado falhas recorrentes. O método de fuzilamento é autorizado por apenas cinco estados americanos: Idaho, Mississippi, Oklahoma, Carolina do Sul e Utah.

A escolha do fuzilamento e da transmissão ao vivo, no entanto, enfrenta questionamentos jurídicos. O processo de apelação de Hasan ainda não foi concluído, e especialistas apontam que ele pode buscar revisão de sua condenação em um tribunal federal, o que provavelmente suspenderia a execução. O professor Eugene R. Fidell, da Universidade de Yale, avalia que Hasan pode recorrer à Justiça civil por meio de um pedido de habeas corpus, e que o caso pode se prolongar além do mandato do atual governo.

Reações e controvérsia

A decisão de transmitir a execução ao vivo gerou uma reação bipartidária negativa, com críticas de senadores republicanos e democratas, além de organizações internacionais de direitos humanos. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos classificou o plano como “repugnante” e afirmou que a transmissão em direto pode configurar tortura. “A transmissão ao vivo de uma execução equivale a uma execução pública e violaria o divieto absoluto de tortura”, declarou o porta-voz Shabia Mantoon, fazendo referência a execuções públicas realizadas no Afeganistão e no Irã. “Tais execuções constituem uma forma de tratamento ou pena cruel, desumana ou degradante.”

A Conferência Episcopal dos Estados Unidos também se manifestou. O arcebispo Paul Stagg Coakley, presidente do órgão, afirmou: “Nosso Deus é o Deus da vida. De nenhuma forma as ações de Hasan podem ser justificadas, mas esta decisão é uma promoção bárbara de uma cultura de morte e deve ser reconsiderada.”

No Congresso, o senador republicano Thom Tillis, da Carolina do Norte, escreveu em uma rede social: “Hasan deve enfrentar a pena capital, mas tornar pública sua execução e transmiti-la ao vivo? É absolutamente repugnante. Execuções públicas são práticas típicas de ditaduras opressivas como o Irã e o Afeganistão. Não deveriam acontecer na América.” O também republicano Austin Scott, da Geórgia, foi na mesma direção: “Apoio absolutamente a pena de morte, mas transmitir execuções ao vivo é o que os jihadistas fazem. A América é melhor que isso.”

O senador democrata Chris Murphy chamou a ideia de repugnante e lembrou as execuções praticadas pelo Estado Islâmico. A deputada Patty Murray pediu que o Pentágono abandone o plano, argumentando que o país pode punir o condenado sem “glorificar a violência e transformar uma execução em um espetáculo público grotesco”.

Joe Kent, ex-diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo do governo Trump que renunciou em março, alertou que a transmissão pode beneficiar grupos extremistas. “Transmitir sua execução não é apenas uma mancha em nossa moralidade — também dá aos terroristas propaganda gratuita que eles usarão para radicalizar e recrutar mais terroristas.” Ned Price, ex-porta-voz do Departamento de Estado, seguiu a mesma linha: “A maneira mais garantida de gerar mais fanáticos radicalizados é glorificar a violência, abraçar um culto à morte e criar um mártir para a causa.”

Por outro lado, especialistas em pena de morte apontam que a transmissão pode ter um efeito de transparência. Deborah Denno, professora de Direito da Universidade Fordham, afirmou que transmitir uma execução pode tornar o processo “muito mais transparente” e informar o público sobre o que a pena capital realmente envolve. “Acho que poderia ser uma boa ideia porque seria transparente e o público estaria plenamente ciente de que está acontecendo.”

O advogado John Mills, que trabalha com presos condenados à morte, foi crítico. “Não existe precedente na era moderna para uma execução pública. Parece-me que foi concebido para ser um espetáculo grotesco. É uma decisão sem precedentes na era moderna e, portanto, situa-se em terreno jurídico incerto.”

O presidente Donald Trump, questionado durante um evento na Casa Branca, foi breve: “Pena de morte por pelotão de fuzilamento, e ele merece.” O Pentágono, por sua vez, recusou-se a comentar as críticas da ONU e limitou-se a confirmar o anúncio. Não está esclarecido se haverá público presente na base militar ou se a transmissão será disponibilizada por outras plataformas. Hegseth não detalhou quantos soldados formarão o pelotão nem como serão selecionados.

O que está em jogo

A execução de Nidal Hasan ocorre em um momento de intenso debate sobre a pena capital nos Estados Unidos. Na semana passada, planos do estado do Tennessee para executar uma mulher pela primeira vez em mais de 200 anos fracassaram quando funcionários da prisão não conseguiram administrar duas injeções letais, deixando a condenada Christa Pike viva, porém hospitalizada. O episódio reacendeu questionamentos sobre a eficácia e a humanidade dos métodos de execução, ao mesmo tempo em que o governo federal amplia as opções disponíveis.

Se a execução for concretizada conforme planejado, Nidal Hasan se tornará a primeira pessoa executada pelas Forças Armadas americanas em 65 anos e o primeiro condenado a morrer por fuzilamento militar desde o fim da Segunda Guerra Mundial. A transmissão ao vivo, se confirmada, representará um retorno a uma prática que os Estados Unidos abandonaram há nove décadas, colocando o país em uma posição incomum entre as democracias ocidentais. Segundo o Centro de Informações sobre a Pena de Morte, 135 soldados foram executados pelo Exército dos Estados Unidos desde 1916.

O caso também levanta questões sobre o papel da justiça militar e os limites da punição estatal. Para defensores da transmissão, trata-se de uma demonstração de que crimes graves têm consequências severas. Para críticos, é a transformação de um ato de justiça em espetáculo, com riscos de fortalecer narrativas extremistas e erodir os valores que o país pretende defender.


Fontes consultadas: RTVE, Estado de Minas, O Globo, CBC News, RSI, GZH, ABC News, CNN Politics, EFE, TASS, The Canadian Press, Anadolu Agency, ORF, Folha de Pernambuco, Swissinfo, Portal G1, Agência Brasil, Jornal de Brasília, Folha de S.Paulo, Correio do Povo, BBC News Brasil, Associated Press, Reuters, CBS News, News18, The Real Media, Anadolu Ajansı, Radio România, Radio Moldova, Agenzia Brasil, Jornal da Cidade, Gazeta do Povo, Rádio Itatiaia, O Tempo, O Povo, Correio 24 Horas, Jornal de Negócios, RTVE, Voz de América, The New York Times.

Tags:

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Régis Andrade

Eu sou Régis Andrade, criador do Portal de Notícias.

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