Felca revela diagnóstico de fobia social e atribui condição a oito anos de bullying escolar
Em vídeo de mais de uma hora, o influenciador detalha agressões físicas, humilhações e o uso de álcool como mecanismo para enfrentar situações sociais; publicação gerou expectativa política, mas focou na saúde mental
O influenciador Felca, nome civil Felipe Bressanim Pereira, de 28 anos, publicou na madrugada desta terça-feira, 20 de outubro, um vídeo de aproximadamente uma hora e três minutos em seu canal no YouTube no qual revela ter recebido o diagnóstico de Transtorno de Ansiedade Social, também conhecido como fobia social. Intitulado “Fobia Social”, o conteúdo foi o primeiro publicado pelo youtuber após cerca de sete meses de afastamento das redes sociais e não abordou o cenário eleitoral, contrariando especulações que circulavam entre seguidores.
Logo na abertura, Felca afirma de forma direta que a condição é um fato confirmado em sua vida. “Tenho fobia social, esse é meu laudo. É o vídeo mais sincero e mais difícil que já fiz”, declara. A fala estabelece o tom confessional que permeia toda a produção, na qual o influenciador reconstitui a trajetória escolar que, segundo ele, desencadeou o transtorno.
O relato aponta que as agressões começaram quando Felca tinha 12 anos e se estenderam até os 18, totalizando oito anos de bullying no ambiente escolar. O influenciador descreve uma escalada de violência que se iniciou com palavrões e humilhações e evoluiu para agressões físicas recorrentes. Um dos episódios narrados com maior detalhamento ocorreu no banheiro da escola, quando foi cercado por cinco colegas maiores e mais fortes. “Não me bateram só até eu cansar, mas até eles cansarem”, afirma. Ele acrescenta que chorou pouco diante da intensidade do que sofreu e resume o período com a frase “dos 14 aos 18 anos, eu sobrevivi”.
As consequências dessa vivência se manifestaram de forma duradoura. Felca relata que o medo e a ansiedade relacionados a ambientes sociais o levaram a descartar a possibilidade de cursar uma faculdade. Segundo o influenciador, ele comunicou aos pais que preferia produzir vídeos a enfrentar novamente uma sala de aula. A fobia social também se manifestou em sintomas físicos intensos: Felca conta que, mesmo após alcançar notoriedade, seus batimentos cardíacos ultrapassam 130 por minuto em situações de exposição pública, e que permanece nesse estado elevado até retornar para casa. Em um dos registros que intercalam o depoimento, ele aparece visivelmente nervoso antes de palestras, entrevistas e gravações. Em março deste ano, antes de participar do programa Roda Viva, da TV Cultura, chegou a ficar dois dias sem dormir.
O influenciador também revelou que recorreu ao álcool por anos como forma de conseguir cumprir compromissos sociais e profissionais. Ele relata que bebia para participar de gravações, conceder entrevistas e subir em palcos. Em uma ocasião, durante uma produção em Londrina, no Paraná, bebeu ao longo de todo o dia para concluir uma gravação e desmaiou ao chegar em casa, fraturando duas costelas. O episódio é apresentado como um divisor de águas que o levou a buscar ajuda. Felca descreve a fobia social como um “medo da vida” e afirma que o álcool apenas criava a ilusão de enfrentamento. “Eu não enfrentei de verdade, enfrentei de mentirinha, porque é isso que o álcool faz”, diz.
O vídeo também aborda períodos de ideação suicida durante a adolescência. Felca menciona que, ao pensar na escola, o medo era tão intenso que encontrar meios de acabar com o sofrimento se tornava uma ideia sedutora. Ele cita o psiquiatra austríaco Viktor Frankl e a logoterapia, abordagem que enfatiza a busca por sentido na vida, como parte do processo que o ajudou a ressignificar essas experiências. A divulgação do diagnóstico e dos episódios de bullying é apresentada pelo influenciador como uma forma de ampliar o debate sobre empatia, acolhimento e a necessidade de tratar com seriedade o sofrimento psicológico.
Ao final do vídeo, Felca anuncia o projeto “#simfel”, um desafio pessoal de três meses no qual se propõe a aceitar convites, conhecer pessoas e sair de casa sem recorrer ao álcool para lidar com o desconforto. A iniciativa será compartilhada com os seguidores por meio dos stories do Instagram. O influenciador também comunicou a retomada do programa de entrevistas “Sofá do Felca” e afirmou que pretende realizar palestras gratuitas sobre bullying em escolas. O objetivo, segundo ele, é acolher vítimas e levar quem pratica agressões a repensar suas atitudes. “Eu não vou cobrar nada por isso”, garante.
A publicação foi precedida por uma mensagem enigmática divulgada no domingo, 18 de outubro, na qual Felca escreveu “Eu me escondi por tempo demais” e anunciou uma novidade para a meia-noite desta terça-feira. A frase alimentou especulações de que o influenciador faria algum pronunciamento de natureza política, especialmente por ocorrer na reta final do segundo turno da disputa presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. Parte dos seguidores esperava que Felca apresentasse denúncias contra o candidato do PL ou declarasse apoio a um dos lados. O vídeo, no entanto, foi integralmente dedicado ao relato pessoal sobre saúde mental e aos desdobramentos do bullying em sua vida.
A escolha do tema gerou reações imediatas nas redes sociais. O youtuber Felipe Neto publicou uma mensagem de indignação poucos minutos após a estreia do vídeo, na qual criticou a expectativa política criada em torno da publicação. Outros perfis também se manifestaram, alguns tratando o conteúdo como uma distração do cenário eleitoral. Felca, por sua vez, não fez qualquer menção às eleições ou a candidatos ao longo da gravação.
O afastamento de aproximadamente sete meses teve início após a repercussão do vídeo “Adultização”, publicado em agosto de 2025, no qual Felca denunciou a exploração e a exposição de crianças e adolescentes na internet. O conteúdo ultrapassou 50 milhões de visualizações, mobilizou autoridades e impulsionou a tramitação de projetos de lei voltados à proteção de menores no ambiente digital. O caso do influenciador Hytalo Santos, posteriormente condenado pela Justiça da Paraíba, esteve entre os abordados. Segundo Felca, o aumento da exposição pública decorrente desse episódio agravou seus sintomas de fobia social e o levou a se isolar novamente. “Depois que eu postei o Adultização e aconteceu tudo o que aconteceu, eu me fechei. Eu fiquei meses sem sair de casa”, relata.
A revelação de Felca se soma a um debate mais amplo sobre os efeitos do bullying na saúde mental de crianças e adolescentes. O transtorno de ansiedade social, conforme descrito no vídeo e corroborado por informações jornalísticas, é caracterizado pelo medo intenso e persistente de situações de interação social, podendo desencadear sintomas físicos como taquicardia, tremores e sudorese. A exposição pública do diagnóstico por uma figura com grande alcance nas redes sociais contribui para dar visibilidade ao tema e para reduzir o estigma que cerca os transtornos mentais. A declaração de Felca de que o bullying deixa marcas que exigem “uma vida inteira de compensação” reforça a necessidade de políticas de prevenção e de acolhimento nas escolas.
Fontes consultadas
Redes Sociais