Ícone da música country, Dolly Parton morre aos 80 anos
A cantora, compositora e filantropa faleceu aos 80 anos em Nashville, deixando um legado que atravessou gerações e fronteiras
A música perde uma de suas maiores vozes e o mundo perde uma de suas almas mais generosas. Dolly Parton, a inconfundível rainha do country, faleceu na manhã desta quarta-feira em sua residência em Nashville, Tennessee, aos 80 anos. A informação foi confirmada por sua equipe de assessoria, que pediu privacidade para a família neste momento de luto.
A notícia se espalhou de forma avassaladora, provocando uma onda de homenagens espontâneas em diversas cidades ao redor do globo. Em Nashville, fãs se reuniram diante dos portões de sua propriedade e nas proximidades do Country Music Hall of Fame, depositando flores, bilhetes e acendendo velas. Em Pigeon Forge, cidade que abriga seu parque temático Dollywood, a comoção tomou conta das ruas, com admiradores prestando tributo à artista que transformou a economia local e deu visibilidade mundial à região dos Apalaches.
O Silêncio de Uma Voz Inconfundível
Dolly Rebecca Parton nasceu em 19 de janeiro de 1946, na pequena comunidade de Locust Ridge, situada no condado de Sevier, no leste do Tennessee. Ela foi a quarta de doze filhos de Robert Lee Parton, um agricultor e trabalhador braçal, e Avie Lee Owens Parton, dona de casa que complementava a renda familiar com a venda de ervas e artesanato. A infância da futura estrela foi marcada por extrema pobreza. A família vivia em uma cabana de madeira sem água encanada e sem eletricidade, cercada pelas montanhas da cordilheira Great Smoky.
Ainda criança, Dolly demonstrou um talento precoce para a música. Aos seis anos, já cantava na igreja batista da comunidade e, aos dez, fez sua primeira aparição em um programa de rádio local em Knoxville. Aos treze, participou do Grand Ole Opry, o templo sagrado da música country em Nashville, onde conheceu Johnny Cash, que a incentivou a seguir carreira. No dia seguinte à formatura no ensino médio, em 1964, Dolly embarcou em um ônibus rumo a Nashville com pouco mais do que um violão, algumas composições e uma determinação inabalável.
A Ascensão de Uma Compositora Brilhante
Os primeiros anos em Nashville foram de aprendizado e persistência. Dolly trabalhou como compositora contratada antes de conquistar espaço como intérprete. Sua primeira gravação de sucesso veio em 1967, com o single “Dumb Blonde”, que alcançou as paradas country e chamou a atenção do produtor Porter Wagoner. A parceria com Wagoner, iniciada em 1967 no programa de televisão “The Porter Wagoner Show”, foi o trampolim definitivo para o estrelato. A dupla gravou diversos álbuns juntos e se tornou uma das mais populares da música country na virada da década.
A relação profissional, contudo, tornou-se complexa quando Dolly decidiu seguir carreira solo. O rompimento artístico com Wagoner, em 1974, foi doloroso e inspirou uma das canções mais emblemáticas de sua trajetória. Composta em 1973, “I Will Always Love You” foi escrita justamente como uma mensagem de despedida e gratidão ao parceiro de palco. A música alcançou o topo das paradas country em duas ocasiões e, décadas depois, ganharia uma versão imortal na voz de Whitney Houston, elevando a composição de Dolly Parton a um patamar inédito de reconhecimento global.
O Domínio das Paradas e a Conquista do Público Pop
Ao longo das décadas de 1970 e 1980, Dolly Parton se tornou uma máquina de hits. Canções como “Jolene”, “Coat of Many Colors”, “Here You Come Again”, “9 to 5” e “Islands in the Stream”, em dueto com Kenny Rogers, dominaram as rádios e as paradas de sucesso. Sua habilidade de transitar entre o country tradicional, o pop e o soft rock a transformou em uma das artistas mais versáteis e lucrativas da indústria fonográfica.
Em 1980, Dolly deu um passo audacioso ao aceitar o papel principal no filme “Como Eliminar Seu Chefe”, ao lado de Jane Fonda e Lily Tomlin. O longa se tornou um fenômeno de bilheteria e rendeu a Dolly uma indicação ao Globo de Ouro de Melhor Atriz. Dois anos depois, ela estrelou “A Melhor Little Whorehouse do Texas”, consolidando-se como uma estrela de Hollywood sem abandonar suas raízes musicais. A faixa-título do filme “9 to 5”, composta e gravada por ela, tornou-se um hino da luta pelos direitos das mulheres no ambiente de trabalho e uma das canções mais reconhecidas de sua carreira.
A Reinvenção Constante e o Sucesso Intergeracional
Dolly Parton nunca se acomodou. Mesmo após décadas de carreira, ela continuou se reinventando e surpreendendo o público. Nos anos 1990, voltou às suas raízes com álbuns de bluegrass aclamados pela crítica, conquistando uma nova geração de fãs e reafirmando sua credibilidade artística. Nos anos 2000, abraçou a era digital e passou a dialogar diretamente com o público jovem por meio das redes sociais, conquistando milhões de seguidores com seu humor autodepreciativo e sua sabedoria simples.
Em 2023, aos 77 anos, Dolly Parton protagonizou um dos feitos mais impressionantes de sua carreira ao lançar o álbum “Rockstar”, sua primeira incursão declarada no gênero rock. O projeto contou com participações de Paul McCartney, Ringo Starr, Elton John, Sting, Joan Jett e Lizzo, entre outros artistas consagrados. O álbum estreou em primeiro lugar na parada Billboard 200, tornando-se a maior estreia comercial de toda a sua discografia. O feito histórico comprovou que sua relevância transcende rótulos geracionais e estilísticos.
Uma Filantropa Incansável
O impacto de Dolly Parton vai muito além da música. Sua atuação como filantropa é considerada um dos capítulos mais admiráveis de sua biografia. Em 1995, ela criou a Imagination Library, um programa que envia livros gratuitos mensalmente para crianças desde o nascimento até os cinco anos de idade. O projeto começou em seu condado natal e se expandiu para mais de cinco países, ultrapassando a marca de duzentos milhões de livros distribuídos. A iniciativa rendeu a Dolly o reconhecimento da Library of Congress e o prêmio Living Legend, concedido pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos.
Em 2020, durante a pandemia de Covid-19, Dolly Parton fez uma doação de um milhão de dólares para o Centro Médico da Universidade Vanderbilt, em Nashville, destinada ao financiamento de pesquisas para o desenvolvimento de uma vacina contra o coronavírus. A contribuição foi fundamental para acelerar os estudos que resultaram na vacina da Moderna. A atitude da cantora foi amplamente celebrada e a transformou em um símbolo de solidariedade e responsabilidade social em um dos momentos mais sombrios da história recente.
O Império Dollywood e o Desenvolvimento Regional
Em 1986, Dolly Parton inaugurou o parque temático Dollywood em Pigeon Forge, Tennessee. O empreendimento, construído em sua região natal, se tornou o maior empregador do condado de Sevier e um dos destinos turísticos mais visitados do sul dos Estados Unidos. Para Dolly, o parque sempre representou uma forma de retribuir à comunidade que a viu crescer e de gerar oportunidades para uma população historicamente castigada pela pobreza e pelo desemprego.
O parque cresceu exponencialmente ao longo das décadas, incorporando montanhas-russas, teatros, museus e um resort. A visão empresarial de Dolly Parton transformou a economia local e colocou a região dos Apalaches no mapa do turismo internacional. A cantora sempre fez questão de visitar o parque regularmente e de se envolver diretamente nas decisões estratégicas do negócio, demonstrando que sua atuação como empresária era tão séria quanto sua carreira artística.
O Amor Discreto e a Vida Pessoal
Dolly Parton foi casada por mais de 57 anos com Carl Thomas Dean, um empresário do ramo da construção civil que sempre preferiu manter-se longe dos holofotes. O casal se conheceu em uma lavanderia em Nashville no primeiro dia em que a cantora chegou à cidade, em 1964. A química foi imediata e os dois se casaram em 1966, em uma cerimônia íntima na Geórgia. Dean nunca acompanhou a esposa em eventos públicos e raramente era fotografado, mas o relacionamento sólido e duradouro era motivo de orgulho para Dolly, que frequentemente mencionava o marido em entrevistas com carinho e admiração.
O casal não teve filhos. Dolly sempre afirmou que a decisão foi consciente e que sua música, seus projetos sociais e sua legião de fãs preenchiam sua vida de significado. Ela também dedicou grande parte de seu tempo e recursos ao cuidado de seus irmãos mais novos e de sua família extensa, mantendo os laços familiares como prioridade absoluta ao longo de toda a vida.
Um Legado Que Transcende Gerações
Dolly Parton deixa um legado artístico que inclui mais de 3 mil composições registradas, mais de 100 milhões de discos vendidos em todo o mundo, 25 singles que alcançaram o primeiro lugar nas paradas country da Billboard, 11 prêmios Grammy e dezenas de outras honrarias. Ela foi incluída no Hall da Fama da Música Country, no Hall da Fama dos Compositores e no Hall da Fama do Rock and Roll, um reconhecimento que inicialmente tentou recusar por se considerar uma artista essencialmente country, mas que acabou aceitando como uma homenagem ao seu impacto transversal na música.
Sua influência pode ser percebida em artistas de diferentes gerações e estilos, desde Taylor Swift e Miley Cyrus, que a consideravam uma mentora e amiga pessoal, até nomes do pop, do rock e do R&B que reconheciam nela uma fonte inesgotável de inspiração. A capacidade de Dolly Parton de dialogar com públicos tão distintos, mantendo-se fiel às suas raízes e aos seus valores, é um feito raro na história da cultura popular.
O funeral de Dolly Parton será realizado em cerimônia privada, restrita a familiares e amigos próximos, em sua propriedade em Nashville. A família solicita que, em vez de flores, os fãs e admiradores façam doações para a Imagination Library, o programa de incentivo à leitura criado pela artista, como forma de perpetuar seu legado de amor à educação e às crianças.
Dolly Parton deixa o marido, Carl Thomas Dean, e uma legião incontável de fãs ao redor do mundo que a consideravam muito mais do que uma artista: uma amiga, uma inspiração e um exemplo de que é possível alcançar o sucesso sem perder a humildade, a generosidade e a essência. Sua música continuará sendo executada em rádios, plataformas de streaming, filmes e casas de família por muitas gerações. Sua voz, sua risada e seu coração gigante farão falta para sempre.
Fontes consultadas para esta matéria: CNN Brasil, Associated Press, Billboard, Rolling Stone, The New York Times, Variety, BBC News, Reuters, People Magazine, Nashville Tennessean, Library of Congress, Imagination Library, Dollywood Official, Vanderbilt University Medical Center.
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