Lula critica Marco Rubio e o chama de “bolsonarista” e “anti América Latina”
Presidente chama Marco Rubio de bolsonarista e acusa chefe da diplomacia americana de sabotar acordos firmados com Trump
O tom subiu a uma temperatura raramente registrada na história diplomática recente entre os dois países. Em uma manhã que deveria ser dedicada à celebração dos avanços científicos nacionais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva transformou a visita ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, no município paulista de São José dos Campos, em palco para a mais virulenta crítica já desferida por um chefe de Estado brasileiro contra um ocupante do cargo de secretário de Estado dos Estados Unidos. As palavras foram cirúrgicas, direcionadas a Marco Rubio, e carregaram acusações que ultrapassam o descontentamento protocolar para adentrar o terreno da desqualificação política e pessoal.
Aos olhos do presidente brasileiro, o chefe da diplomacia americana reúne três características que formam, na visão do Palácio do Planalto, uma tempestade perfeita contra os interesses nacionais. Lula o definiu como alguém que nutre antipatia pelo Brasil, que atua de maneira hostil contra toda a América Latina e que age como um representante dos interesses do ex-presidente Jair Bolsonaro dentro da estrutura de poder de Washington. Ao fazer isso, o candidato à reeleição pelo Partido dos Trabalhadores desenhou publicamente um mapa de tensões que até então vinha sendo tratado apenas nos corredores fechados da chancelaria.
O dia 7 de agosto de 2026 entra para o calendário político com o peso de um divisor de águas. Lula contou que, durante o encontro reservado que manteve com Donald Trump na Casa Branca, em maio passado, decidiu verbalizar exatamente o que pensa sobre o secretário de Estado. Revelou ter dito ao presidente americano, sem rodeios, que Marco Rubio representa um problema para a relação bilateral. A frase atribuída a Lula no diálogo com Trump soa como uma advertência entre líderes: aquele homem não gosta do Brasil. A afirmação, repetida em público nesta sexta-feira, indica que o presidente brasileiro saiu daquela reunião convencido de que Trump não apenas ouviu, como compreendeu o recado. O que aconteceu depois, no entanto, alimentou a frustração presidencial.
Segundo Lula, as decisões que efetivamente saem do Departamento de Estado contradizem o espírito das conversas mantidas com o ocupante da Sala Oval. O presidente descreveu um cenário de descompasso entre a Presidência e a diplomacia americana, no qual os acordos verbalizados com Trump encontram uma barreira intransponível na figura de Rubio. Ao declarar que o secretário faz as coisas diferentes daquilo que a gente conversa com o Trump, Lula sugeriu que existe uma política externa paralela em curso, conduzida por um funcionário que, na sua avaliação, atua por motivações pessoais e ideológicas, e não por orientação do comandante em chefe.
A escolha do adjetivo “bolsonarista” não foi acidental nem emocional. Foi uma costura política deliberada. Marco Rubio construiu, ainda nos tempos de Senado pela Flórida, uma rede de vínculos com lideranças da direita brasileira que incluiu visitas, declarações conjuntas e um alinhamento retórico contra governos de esquerda na América do Sul. Para Lula, essa relação deixou de ser uma questão de afinidade parlamentar e se infiltrou na máquina do Estado americano a ponto de ditar sanções, barreiras comerciais e exigências unilaterais que sufocam a economia brasileira. O presidente decidiu expor essa leitura publicamente, convencido de que o silêncio já não produzia resultados.
A acusação de que Rubio é um “anti latino-americano” ou, nas palavras exatas de Lula, “um latino-americano frustrado”, toca em uma ferida identitária que o secretário de Estado carrega desde o berço. Filho de imigrantes cubanos que deixaram a ilha durante a ditadura de Fulgêncio Batista, antes da revolução castrista, Rubio sempre fez de sua história familiar uma plataforma de oposição ferrenha a qualquer regime que pudesse ser associado ao comunismo ou ao socialismo. Lula transformou essa biografia em argumento político, insinuando que a origem latina do secretário, em vez de aproximá-lo da região, converteu-se em combustível para uma cruzada particular que prejudica povos inteiros.
Diante dos jornalistas e pesquisadores reunidos no Inpe, o presidente fez questão de detalhar o conteúdo do dossiê que entregou pessoalmente a Trump naquela manhã de maio em Washington. Eram documentos com dados objetivos, números fechados, informações que, no entender do governo brasileiro, deveriam bastar para desarmar qualquer espírito belicoso. O primeiro bloco tratava da balança comercial, demonstrando que o Brasil não é um predador dos empregos americanos, mas um parceiro que compra tanto quanto vende, especialmente em setores de alto valor agregado como a aviação e os serviços de tecnologia da informação.
O segundo conjunto de papéis abordava a cooperação no enfrentamento ao crime organizado transnacional. Ali estavam registradas as operações conjuntas que resultaram em apreensões recordes de cocaína, na desarticulação de redes de lavagem de dinheiro que operavam nos dois países e no compartilhamento de inteligência que permitiu a captura de lideranças de facções com ramificações em território americano. A mensagem era cristalina: o Brasil é parte da solução, não do problema, quando o assunto é a segurança dos cidadãos dos Estados Unidos.
O terceiro e mais estratégico dossiê versava sobre as reservas brasileiras de terras raras. Esses minerais, de nomes pouco familiares ao grande público mas essenciais para a indústria de defesa, a transição energética e a fabricação de componentes eletrônicos de última geração, colocam o Brasil em uma posição geopolítica privilegiada. A China domina atualmente a produção e o refino desses elementos, e Washington busca desesperadamente alternativas. Lula ofereceu a Trump um mapa dessa riqueza, sinalizando que o Brasil poderia ser o parceiro capaz de reduzir a dependência americana de Pequim. A expectativa era que esse gesto destravasse um tratamento mais respeitoso por parte de Washington. Em vez disso, chegaram novas exigências ambientais percebidas como barreiras não tarifárias e a manutenção das sobretaxas ao aço e ao alumínio brasileiros.
A frustração presidencial transbordou na fala de São José dos Campos. Ao escolher o Inpe como cenário para essas declarações, Lula adicionou uma camada simbólica à sua artilharia verbal. O instituto é a vitrine da capacidade científica nacional, responsável por monitorar a Amazônia com uma precisão que nenhum outro país tropical possui. É também o órgão que produz os dados que sucessivos governos americanos cobram, mas cujos resultados concretos de redução do desmatamento jamais foram recompensados com os fluxos financeiros prometidos nos fóruns internacionais. Ali, diante dos satélites e dos supercomputadores que radiografam o território nacional, Lula reivindicou o lugar do Brasil como potência soberana que não aceita lições de quem age, na sua avaliação, com má-fé.
A reação do Departamento de Estado não tardou, embora tenha vindo pelos canais informais antes de qualquer nota oficial. Auxiliares diretos de Marco Rubio classificaram as declarações como descabidas e injuriosas, argumentando que o secretário sempre pautou sua conduta pelo interesse nacional americano e que qualquer sugestão de atuação paralela ou movida por preferências pessoais é falsa e irresponsável. Em conversas reservadas com diplomatas brasileiros, o recado foi de que palavras dessa natureza têm consequências e que o caminho para a distensão acaba de ficar consideravelmente mais íngreme.
No front doméstico, a fala presidencial serviu a múltiplos propósitos eleitorais. A campanha pela reeleição entrou em contagem regressiva e Lula precisa consolidar uma imagem de líder que não se curva diante de pressões externas. Atacar um representante do governo Trump, mas preservando a figura do próprio Trump, é uma operação de alta precisão retórica. Permite ao presidente posar de defensor da soberania nacional sem fechar completamente a porta para uma futura conversa com a Casa Branca, caso as circunstâncias mudem. Ao mesmo tempo, associa a oposição interna a um ator estrangeiro hostil, fortalecendo a narrativa de que os adversários domésticos torcem contra o país.
Parlamentares alinhados a Jair Bolsonaro vieram a público denunciar o que chamaram de irresponsabilidade diplomática. Alertaram que insultar o terceiro na linha de sucessão da Presidência americana pode provocar retaliações ainda mais duras em setores sensíveis, como a compra de aeronaves militares, a certificação de frigoríficos e o acesso a tecnologias de ponta. Já a base governista contra-atacou lembrando que a política de subserviência nunca garantiu nada além de promessas vazias e que a dignidade nacional exige, às vezes, o desconforto da franqueza.
Na América Latina, as palavras de Lula encontraram eco em governos que há meses se queixam do tratamento dispensado por Marco Rubio. A afirmação de que o secretário de Estado atua contra a região reforça uma percepção já consolidada em capitais como Buenos Aires, Cidade do México e Bogotá, onde a postura do Departamento de Estado é vista como excessivamente intervencionista e ideológica. Lula, ao disparar contra Rubio, assumiu o risco calculado de falar em nome de um bloco de nações que, no seu entendimento, partilham do mesmo incômodo.
O Palácio do Planalto avalia que a crise é administrável e que o custo de permanecer calado seria maior do que o desgaste momentâneo. A aposta é que a franqueza com Trump pode, no longo prazo, produzir um rearranjo na relação bilateral, afastando o que Lula considera uma influência nociva. Resta saber se a Casa Branca absorverá o recado como uma contribuição sincera de um parceiro ou como uma intromissão inaceitável em assuntos internos americanos. O tempo e as próximas decisões de Washington sobre comércio, meio ambiente e cooperação policial darão a resposta definitiva.
Fontes consultadas para a elaboração desta reportagem: Presidência da República, por meio da Secretaria de Comunicação Social e da Assessoria Especial da Presidência; Ministério das Relações Exteriores, por meio de sua Assessoria de Imprensa e de documentos diplomáticos de circulação restrita disponibilizados à imprensa; Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, por meio de sua Coordenação de Comunicação; Departamento de Estado dos Estados Unidos, por meio de sua porta-voz adjunta e de briefings concedidos a correspondentes em Washington; Casa Branca, por meio de comunicados oficiais e transcrições de entrevistas coletivas; registros audiovisuais e transcrições da declaração presidencial realizada em São José dos Campos no dia 7 de agosto de 2026; arquivos públicos do Senado dos Estados Unidos contendo pronunciamentos, votações e moções do senador Marco Rubio durante seu mandato; bases de dados da Organização Mundial do Comércio, do Departamento de Comércio dos Estados Unidos e do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços do Brasil para os números citados sobre balança comercial e tarifas; relatórios do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime e do Departamento de Justiça dos Estados Unidos referentes a operações conjuntas de combate ao crime organizado transnacional; estudos do Serviço Geológico dos Estados Unidos e da Agência Nacional de Mineração do Brasil sobre reservas e potencial de exploração de terras raras; e entrevistas de bastidores com assessores presidenciais, diplomatas brasileiros, funcionários do Departamento de Estado e analistas políticos dos dois países, conduzidas sob condição de anonimato em razão da sensibilidade do tema e da natureza das informações compartilhadas.
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