Milei volta a criticar Lula e acusa a esquerda de tentar fraudar a eleição
Milei chama Lula de ladrão, insinua fraude e aprofunda tensão diplomática às vésperas do segundo turno brasileiro em crise!
O presidente da Argentina, Javier Milei, voltou a dirigir ataques ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao processo eleitoral brasileiro na noite desta terça-feira, 20 de outubro de 2026, a cinco dias do segundo turno que definirá o próximo ocupante do Palácio do Planalto. Em publicação na rede social X, o mandatário argentino chamou o petista de “esquerdista ladrão”, classificou setores progressistas de “delinquentes” e “machirulos” e insinuou, sem apresentar qualquer prova, que a esquerda poderia tentar fraudar a votação de domingo, 25. A ofensiva ocorre no momento mais delicado da campanha presidencial brasileira e aprofunda a pior crise diplomática entre Brasil e Argentina em quatro décadas.
A manifestação de Milei foi motivada por uma declaração feita por Lula no dia anterior, durante sabatina promovida pelo SBT. Na ocasião, o candidato à reeleição defendeu o fim da escala de trabalho 6×1 e argumentou que a mudança beneficiaria especialmente as mulheres, considerando a sobrecarga de tarefas domésticas acumuladas durante a semana. “No caso das mulheres, o dia que ela fica em casa é o dia que ela mais trabalha, porque ela tem que limpar a casa da semana inteira”, afirmou Lula. O presidente brasileiro também esclareceu que a extinção do modelo 6×1 não implicaria uma norma inflexível, mas estabeleceria bases gerais a serem negociadas conforme as particularidades de cada categoria profissional, citando como exemplos as diferenças entre os horários em hospitais e fábricas.
Ao comentar a fala, Milei acusou Lula e seus aliados de adotarem um discurso contraditório sobre questões de gênero. “Os progressistas machirulos. Depois andam acusando todos os seus oponentes de misóginos. A máscara está caindo para esses delinquentes”, escreveu o argentino. Na mesma publicação, acrescentou a insinuação de fraude eleitoral: “Espero que o último truque sujo de campanha deles não inclua roubar a eleição. Esquerdista ladrão”. O presidente argentino encerrou a postagem com a sigla “VLLC”, usada por seus apoiadores. A acusação de fraude foi feita sem que Milei apresentasse qualquer elemento concreto ou evidência que a sustentasse.
A reação do governo brasileiro foi imediata e contundente. O Ministério das Relações Exteriores divulgou nota oficial classificando as declarações como uma “nova e inaceitável tentativa de ingerência externa no processo democrático brasileiro”. A pasta afirmou que as ofensas foram dirigidas ao Poder Judiciário e ao sistema de voto eletrônico, e que a manifestação é “antidemocrática, desequilibrada e não condiz com a postura que deve ter o chefe de Estado de um país amigo”. O Itamaraty também rebateu a insinuação de fraude e reiterou que o sistema brasileiro de voto eletrônico é comprovadamente seguro, nunca registrou irregularidades e teve sua lisura atestada por observadores eleitorais internacionais no primeiro turno. A nota concluiu que a decisão sobre o futuro do Brasil cabe exclusivamente ao povo brasileiro, que se manifestará livremente nas urnas, sem qualquer tipo de ingerência externa.
A escalada retórica de Milei não é um episódio isolado. O presidente argentino é declarado apoiador do senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL que disputa o segundo turno contra Lula. O apoio foi formalizado em julho, quando Milei participou da convenção nacional do Partido Liberal em São Paulo, que oficializou a candidatura do senador. Na ocasião, o argentino subiu ao palanque ao lado de Flávio e do governador Tarcísio de Freitas, declarou que somente o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro seria capaz de derrotar Lula nas urnas e incentivou a plateia a entoar o coro de “Lula ladrão”. O discurso, proferido sem nomear diretamente o petista, também se referiu ao presidente brasileiro como “presidiário” e ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, como “lixo careca”.
A participação de Milei na convenção do PL desencadeou uma crise diplomática de proporções inéditas na história recente das relações entre Brasil e Argentina. O Itamaraty convocou o embaixador argentino em Brasília, Daniel Raimondi, para prestar esclarecimentos e chamou para consultas o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli. O chanceler argentino, Pablo Quirno, tentou minimizar a tensão e afirmou que não havia intenção de ruptura com o Brasil. No entanto, Milei seguiu repetindo as ofensas em entrevistas a veículos argentinos, o que levou o governo brasileiro a rebaixar o nível das relações diplomáticas entre os dois países em agosto, mantendo apenas encarregados de negócios em ambas as embaixadas. A decisão representou uma das respostas diplomáticas mais severas adotadas pelo Brasil contra um governo estrangeiro desde a redemocratização.
A publicação desta terça-feira foi precedida por outra provocação de Milei nas redes sociais. Na segunda-feira, 19, o argentino compartilhou uma montagem com caricaturas de Lula e de outros líderes de esquerda latino-americanos em meio a escombros, com a legenda “esquerdistas choram”. A imagem retratava o presidente brasileiro ao lado de figuras como o ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro, o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, a ex-presidente argentina Cristina Kirchner, o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, e a presidente do México, Claudia Sheinbaum. A provocação foi uma reação ao fato de Lula ter citado Milei durante o debate presidencial da TV Bandeirantes, no domingo, 18, quando questionou Flávio Bolsonaro sobre a proximidade do senador com o argentino e a eventual adoção do modelo de ajuste fiscal implementado em Buenos Aires.
A ofensiva de Milei ocorre em um momento de equilíbrio técnico nas pesquisas de intenção de voto. Os últimos levantamentos mostram Lula e Flávio Bolsonaro tecnicamente empatados, o que torna o segundo turno de domingo uma disputa aberta. A campanha tem sido marcada por trocas de acusações e pela crescente participação de lideranças estrangeiras no debate eleitoral brasileiro. O governo brasileiro tem reiterado que não tolerará interferências externas e que a soberania do voto popular será preservada. A expectativa é de que o Itamaraty volte a se pronunciar caso Milei intensifique os ataques nos próximos dias, mas a avaliação nos bastidores da diplomacia brasileira é de que a estratégia do argentino visa menos influenciar o eleitor brasileiro e mais consolidar sua posição como principal voz da ultradireita na América do Sul.
Fontes consultadas: SBT News, O Tempo, CNN Brasil, O Globo, Congresso em Foco, CBN, G1, Poder360, GP1, Rádio Itatiaia, Infobae, Diário do Estado de São Paulo, Meio News, Swissinfo, Xinhua, Folha de S.Paulo, O Povo.