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Curiosidades

Mundo perdido: o paraíso pré histórico escondido sob o gelo da Antártida

By Régis Andrade
20 de outubro de 2026 3 Min Read
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Rios, vales e florestas de 34 milhões de anos ficaram intactos sob até 3 km de gelo na Antártida Oriental, revela estudo

Há 34 milhões de anos, antes de a Antártida se transformar no deserto polar que conhecemos, a região que hoje corresponde à Terra de Wilkes, no leste do continente, abrigava uma vasta rede de rios que esculpiam vales profundos e florestas que cobriam blocos elevados de terra. Esse mundo perdido, no entanto, não desapareceu por completo. Ele permaneceu praticamente intacto sob uma camada de gelo que chega a quase três quilômetros de espessura, funcionando como uma cápsula do tempo geológica que cientistas acabam de revelar em detalhes sem precedentes.

A descoberta, publicada na revista científica Nature Communications, foi liderada por pesquisadores da Universidade de Durham, no Reino Unido, em colaboração com a Universidade de Newcastle. O estudo mapeou uma área de 32 mil quilômetros quadrados sob o manto glacial da Antártida Oriental, uma extensão comparável ao tamanho da Bélgica ou do estado norte-americano de Maryland. Para “enxergar” através do gelo sem perfurá-lo, a equipe combinou imagens de satélite que captam pequenas ondulações na superfície congelada com dados de radares de sondagem aerotransportados, capazes de penetrar quilômetros de gelo e revelar a topografia rochosa abaixo.

O relevo identificado é composto por três grandes blocos de terra elevada, cada um com extensão entre 120 e 170 quilômetros, separados por vales que chegam a 40 quilômetros de largura e quase 1.500 metros de profundidade. A configuração dessas feições indica que a paisagem foi esculpida pela ação de rios que corriam livremente antes do avanço do gelo, em um ambiente que, segundo os pesquisadores, pode ter variado de um clima semelhante ao da Patagônia atual até condições mais próximas das tropicais. A descoberta de pólen de palmeiras antigas em regiões costeiras próximas ao local do estudo reforça essa interpretação de um continente outrora muito mais quente e verdejante.

A preservação excepcional desse relevo ao longo de milhões de anos é atribuída a uma característica particular do gelo que o recobre. Diferentemente das geleiras que avançam e erodem o solo sob seus pés, a camada de gelo nessa parte da Antártida Oriental é extremamente fria e lenta, permanecendo congelada à rocha subjacente. Esse gelo, classificado como “de base fria”, exerce uma ação erosiva mínima e funcionou como um escudo que manteve as feições do terreno praticamente inalteradas desde antes do início da grande glaciação. Enquanto a maior parte do continente foi raspada e remodelada pelo avanço e recuo das geleiras ao longo dos ciclos climáticos, essa porção específica permaneceu protegida, congelada em sua forma original.

O contexto geológico que levou ao congelamento dessa paisagem remonta à transição entre as épocas do Eoceno e do Oligoceno. Há cerca de 34 milhões de anos, uma queda acentuada nos níveis de dióxido de carbono na atmosfera provocou um resfriamento global que deu início à formação da vasta camada de gelo que hoje cobre a Antártida Oriental. O avanço do gelo, no entanto, não arrasou o terreno: ao contrário, selou-o sob uma espessa camada protetora, criando uma das raras janelas disponíveis para estudar como era o continente antes do grande congelamento.

Para os cientistas, o achado transcende a curiosidade histórica. O relevo oculto é menos conhecido do que a superfície de Marte, e cada nova informação obtida a partir dele ajuda a compreender como a camada de gelo antártica se comportou no passado e como poderá reagir ao aquecimento global contemporâneo. A estabilidade de longo prazo dessa região, sugerida pela preservação da paisagem, indica que, embora o gelo possa ter recuado durante períodos mais quentes, as condições locais provavelmente não sofreram mudanças drásticas, o que fornece pistas valiosas para os modelos climáticos e para as projeções de elevação do nível do mar.

O próximo passo da pesquisa é a perfuração do gelo para a coleta de amostras de sedimentos e possíveis vestígios orgânicos que possam revelar com precisão quais formas de vida habitaram aquela região antes do congelamento. Até lá, o mundo perdido sob o gelo da Antártida permanece como um dos segredos mais bem guardados do planeta, agora finalmente exposto pela ciência.

Fontes consultadas

Nature Communications (estudo científico “An ancient river landscape preserved beneath the East Antarctic Ice Sheet”, de Stewart S. R. Jamieson, Neil Ross e colaboradores)

Reuters

Vice

EurekAlert (comunicado de imprensa da Universidade de Durham)

Daily Mail

The Mirror

France Info

New York Post

Express

Tags:

Antártidadescoberta científicagelomudanças climáticaspré história
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Régis Andrade

Eu sou Régis Andrade, criador do Portal de Notícias.

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