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Política

Trump sinalizou na ONU a utilização das forças armadas americanas na América Latina, igualando cartéis de drogas ao Estado Islâmico

By Régis Andrade
23 de setembro de 2026 10 Min Read
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Trump na ONU: “Os cartéis são o Estado Islâmico do Hemisfério Ocidental” e ameaça usar poder militar na América Latina

Em discurso na Assembleia Geral da ONU, presidente dos EUA classifica facções criminosas como organizações terroristas, defende que sejam “mortas, exiladas ou detidas como combatentes inimigos” e afirma que Washington usará “poderio militar incomparável” para garantir seus interesses no continente


O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, transformou seu discurso na 80ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, em Nova York, em uma plataforma de ameaça direta à América Latina. Em tom beligerante, Trump comparou os cartéis de drogas ao grupo terrorista Estado Islâmico (ISIS) e afirmou que os Estados Unidos estão dispostos a recorrer ao seu “poderio militar incomparável” para garantir os interesses nacionais americanos no Hemisfério Ocidental.

A declaração mais contundente veio logo no início de sua fala. “Os cartéis são o ISIS do Hemisfério Ocidental”, afirmou Trump, classificando os grupos criminosos como “inimigos em guerra com a civilização”. Em seguida, foi além: “Como o ISIS, eles devem ser mortos, exilados ou detidos como combatentes inimigos sem possibilidade de soltura, que é o que estamos fazendo”. A comparação, que já vinha sendo ensaiada por setores do governo americano, foi formalizada no palco da ONU como doutrina oficial.

Trump revelou ainda que, após assumir o cargo, designou os cartéis de drogas como organizações terroristas estrangeiras e desencadeou uma operação com as Forças Armadas Americanas para eliminá-los. Segundo o presidente, os Estados Unidos realizaram “dezenas de ataques” contra embarcações usadas pelos cartéis para transportar drogas, ações que, segundo ele, destruíram 97% dos entorpecentes que chegavam pelo mar. O presidente também afirmou que, três meses antes, os Estados Unidos haviam eliminado o líder da gangue venezuelana Tren de Aragua.

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O discurso não se limitou à retórica. Trump deixou explícita a possibilidade de intervenção militar unilateral em território latino-americano. “Nossas ações na Venezuela são prova de que os Estados Unidos não vão mais permitir que ameaças à América ganhem posição de destaque no hemisfério ocidental e, se necessário, usaremos nosso poderio militar incomparável para garantir os interesses nacionais vitais dos EUA”, declarou. A fala foi interpretada por analistas e governos da região como uma sinalização de que Washington está disposto a repetir na América Latina o modelo de intervenção adotado no Oriente Médio.

O México foi alvo de menção direta. Trump afirmou que os Estados Unidos compartilham uma fronteira de aproximadamente 3.145 quilômetros com o país e disse ser inaceitável que cartéis controlem parte do território mexicano. “O México precisa recuperar o controle de seu solo dos inimigos da humanidade”, declarou, antes de afirmar que mantém uma “relação muito boa” com o governo mexicano e que as autoridades do país também não querem a atuação dos cartéis.

O Brasil, embora não citado nominalmente no discurso, já havia sido alvo de críticas diretas por parte de Trump em documento enviado ao Congresso americano no dia 16 de setembro. No texto, o presidente americano afirmou que o governo brasileiro falhou em enfrentar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), e que as duas organizações transformaram o Brasil em um centro para o fluxo global de cocaína. Em 5 de junho, os Estados Unidos haviam oficializado a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas estrangeiras, medida que permite a aplicação de sanções financeiras e outras restrições contra as organizações e pessoas que mantenham relações com os grupos.

A doutrina apresentada por Trump na ONU tem um nome e um propósito estratégico. O presidente anunciou que, após o discurso, participaria da reunião da coalizão “Escudo das Américas” (Shield of the Americas), um bloco que reúne países alinhados a Washington — como Argentina, Equador, El Salvador, Colômbia e Peru — com o objetivo declarado de combater os cartéis de drogas. Brasil e México, os dois maiores países da região, não integram a coalizão. A iniciativa representa uma tentativa de reorganizar o continente em torno de uma agenda de segurança liderada pelos Estados Unidos, à margem de organismos multilaterais como a Organização dos Estados Americanos (OEA) e a Celac.

A reação dos líderes latino-americanos foi imediata e contundente. O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, que discursou na abertura da Assembleia Geral antes de Trump, alertou contra as “tentações hegemônicas” da “maior potência do mundo” na América Latina. Lula afirmou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém” e defendeu que “a democracia está novamente em xeque” diante da “ingerência externa em processos eleitorais”. Em outro momento, o presidente brasileiro foi categórico: “Basta de ameaças à América do Sul e que se detenham as ações militares unilaterais no mundo”.

O presidente do Chile, Gabriel Boric, que também discursou na ONU, criticou duramente o negacionismo climático de Trump e, por extensão, o conjunto de sua postura. “Hoje, neste mesmo púlpito, alguém afirmou que não existe tal coisa como o aquecimento global. Isso não é uma opinião, é uma mentira. E as mentiras devem ser combatidas”, declarou Boric. Embora tenha evitado personalizar as críticas, o presidente chileno tem um histórico de embates diretos com Trump, a quem já acusou de “dinamitar a ordem mundial”.

O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, foi além da retórica e partiu para o confronto direto. Em seu discurso, Petro apontou que os chefes dos cartéis de droga “moram em Miami” e “são vizinhos” de Trump, sugerindo uma cumplicidade entre o establishment americano e o crime organizado. O presidente colombiano também condenou os ataques dos EUA no Caribe e afirmou que “o governo dos Estados Unidos não respeita o direito internacional”. A resposta de Washington foi rápida: o Departamento de Estado americano revogou o visto de Petro, alegando que ele havia “instado soldados americanos a desobedecer ordens e incitado a violência” durante sua estadia em Nova York. O episódio elevou a tensão a um novo patamar e expôs a fragilidade do multilateralismo quando confrontado com a unilateralidade da maior potência militar do planeta.

A presidente do México, Claudia Sheinbaum, adotou um tom mais cauteloso, mas não menos firme. Em resposta às declarações de Trump, Sheinbaum defendeu a estratégia mexicana de combate ao crime organizado e rejeitou categoricamente qualquer possibilidade de intervenção militar americana em território mexicano. “Somos uma nação soberana e não aceitaremos intervenção estrangeira”, afirmou, em conversa telefônica com Trump na qual deixou claro que a cooperação bilateral só é possível com “respeito absoluto à soberania”. A presidente mexicana também pediu “cabeça fria” à população diante das declarações de Trump de que o México é o “epicentro da violência dos cartéis”.

O governo colombiano foi além da retórica presidencial. A chancelaria do país anunciou que enviaria uma nota de protesto formal aos Estados Unidos em resposta às ameaças de intervenção militar. A ministra das Relações Exteriores, Rosa Villavicencio, declarou que a Colômbia “rejeita essas declarações” e lembrou que o presidente Petro “é um presidente legitimamente eleito pelo voto popular”. Em dezembro de 2025, o governo colombiano já havia se manifestado contra “qualquer sugestão de uso de força militar em seu território”, afirmando que “violar nossa soberania é declarar guerra”.

A Bolívia também se pronunciou. O presidente Luis Arce classificou a nova postura americana como um retrocesso histórico. “Isso é uma nova variante da Doutrina Monroe. É o retorno do neocolonialismo”, afirmou, acrescentando que os Estados Unidos usam a luta contra o narcotráfico como “pretexto” para “intervir na Venezuela, saquear seus recursos e impor práticas neocoloniais”.

O chanceler cubano, Bruno Rodríguez, foi ainda mais incisivo. Ele alertou que “o cheiro de pólvora está aumentando no Caribe” e denunciou que os EUA realizam “um desdobramento aéreo e naval anormalmente denso” sob o pretexto de combater o crime e o narcotráfico — “mas ninguém acredita nessa história”. Rodríguez listou testes de mísseis, interceptação de barcos de pesca e embarcações não identificadas e uso de força letal extrajudicial contra civis, ações que, segundo ele, violam o direito internacional e abalam a paz e a segurança regionais.

A comunidade internacional também manifestou preocupação. O Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) emitiu um comunicado no qual afirmou que os Estados Unidos “devem respeitar o direito à vida e revisar urgentemente suas práticas de uso de força letal no mar, no exterior e em casa”. O órgão foi enfático: “A responsabilização por violações de direitos humanos não pode ser buscada por meio de intervenção militar unilateral em violação da Carta da ONU”.

O Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, foi além e declarou que a operação militar americana na Venezuela “minou um princípio fundamental do direito internacional”. Segundo Türk, os Estados Unidos justificaram a intervenção citando o histórico de violações de direitos humanos do governo venezuelano, mas “a responsabilização por violações de direitos humanos não pode ser alcançada por meio de intervenção militar unilateral que viola o direito internacional”.

No plano militar, o Pentágono tem ampliado significativamente sua presença no Caribe. Segundo informações divulgadas, os Estados Unidos enviaram mais de 4.000 fuzileiros navais e marinheiros para as águas ao redor da América Latina e do Caribe, no que descrevem como parte de uma campanha antinarcóticos. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, afirmou que o presidente Trump conseguiu “conter a invasão dos cartéis e de outros atores criminosos” na fronteira sul dos Estados Unidos e incentivou outras nações a cooperar com Washington na luta contra os cartéis. Documentos do Pentágono revelam que os EUA se declararam em “conflito armado não internacional” com os cartéis de drogas, uma caracterização jurídica que, na prática, autoriza o uso da força letal sem as restrições impostas pelo direito penal convencional.

A escala das operações é significativa. Mais de 60 ataques foram conduzidos pelo militar americano, resultando em mais de 200 mortes extrajudiciais no Mar do Caribe e no Oceano Pacífico, segundo levantamentos independentes. Em quase todos os casos, os alvos eram embarcações suspeitas de transportar drogas, mas não há confirmação de que todos os mortos fossem traficantes.

O pano de fundo histórico é inevitável. Desde o século XIX, quando o presidente James Monroe proclamou a doutrina que leva seu nome, os Estados Unidos trataram a América Latina como sua zona de influência exclusiva. Intervenções militares, golpes de Estado, apoio a ditaduras e bloqueios econômicos marcaram a relação da região com Washington ao longo de mais de dois séculos. A novidade do discurso de Trump não está, portanto, na essência da ameaça, mas na sua explicitação crua e na comparação aberta entre cartéis latino-americanos e o ISIS — uma analogia que, na prática, transforma criminosos comuns em inimigos de guerra e legitima o uso da força letal sem as garantias do devido processo legal.

A pergunta que paira sobre a região é se a doutrina anunciada por Trump na ONU permanecerá no campo da retórica ou se dará origem a novas intervenções militares. A operação que removeu Nicolás Maduro do poder na Venezuela, em janeiro de 2026, e o subsequente anúncio de que Washington poderia “administrar” o país e explorar seu petróleo, já sinalizaram que a administração americana está disposta a ir além das palavras. A reação unânime de Brasil, Chile, Colômbia, Espanha, México e Uruguai, que emitiram um comunicado conjunto condenando o ataque à Venezuela e manifestando “grave preocupação” com a violação da soberania venezuelana, indica que a região não assistirá passivamente a uma nova era de intervencionismo.

O discurso de Trump na ONU não foi apenas uma declaração de política externa. Foi um ultimato. E a América Latina, pela primeira vez em décadas, parece disposta a responder à altura.


Fontes consultadas:

  1. Poder360 — “Na ONU, Trump compara cartéis de drogas ao Estado Islâmico” (22.set.2026)
  2. BBC News Brasil — “Na ONU, Trump ameaça usar poder militar dos EUA para garantir ‘interesses’ na América Latina” (22.set.2026)
  3. Xinhua — “拉美国家齐‘开火’ 美国形象大‘翻车’” (29.set.2025)
  4. Xinhua (App) — “拉美国家齐‘开火’ 美国形象大‘翻车’” (29.set.2025)
  5. Rti央廣 — “川普聯大演說重申美國主導西半球 拉盟邦打擊販毒” (23.set.2026)
  6. SBT News — “Trump fala em usar poderio militar no Hemisfério Ocidental” (22.set.2026)
  7. China Daily — “Brazilian president warns armed intervention in Venezuela would be ‘humanitarian catastrophe’”
  8. Revista Fórum — “América Latina não tem dono” (22.set.2026)
  9. ANSA Latina — “Lula duro contra Trump, ‘basta con las amenazas a Sudamérica’” (23.fev.2026)
  10. Swissinfo — “Boric critica con dureza ‘las mentiras’ y el discurso negacionista de Trump en la ONU” (23.set.2025)
  11. El Dinamo — “Boric cuestiona efectividad de la ONU, insta a crear un nuevo orden mundial” (4.jun.2026)
  12. ANSA Latina — “Petro reprocha a Trump” (27.set.2025)
  13. Hora do Povo — “Presidente colombiano denuncia cumplicidade dos EUA com Israel e Trump revoga seu visto” (27.set.2025)
  14. Rti央廣 — “在紐約籲美軍違抗川普命令 哥倫比亞總統遭撤消美簽證” (27.set.2025)
  15. Xinhua — “Mexico defends anti-drug efforts after Trump threatens military action” (8.mai.2026)
  16. UPI — “Mexico’s Sheinbaum rejects Trump’s criticism about drug cartels” (7.mai.2026)
  17. Notícias ao Minuto — “Sheinbaum pede calma após Trump dizer que México é epicentro dos cartéis” (7.mar.2026)
  18. Xinhua — “Mexican president rejects U.S. intervention in Mexico to combat drug cartels” (6.jan.2026)
  19. People.cn — “哥伦比亚外交部向美国发出抗议照会” (7.jan.2026)
  20. CNR — “哥伦比亚外长:反对任何在其领土动用军事力量的暗示” (6.dez.2025)
  21. CGTN Português — “Presidente do Brasil critica ações militares dos EUA na Venezuela” (19.jan.2026)
  22. Agência Brasil — “Em comunicado, Brasil e mais cinco países condenam ataque à Venezuela” (4.jan.2026)
  23. OHCHR — “The United States must respect right to life and urgently review lethal-force practices at sea, abroad and at home” (15.jan.2026)
  24. OHCHR — “Türk says U.S. operation in Venezuela clearly undermines fundamental principle of international law” (6.jan.2026)
  25. WION News — “‘We will blow you out of existence’: Trump warns drug cartels in his UNGA address” (23.set.2025)
  26. CNN Chile — “Donald Trump destaca la misión de EE.UU. contra los cárteles y advierte: ‘Los borraremos del mapa’” (23.set.2025)
  27. Qazinform — “Caribbean enforcement and its global reach: What the Venezuela case signals beyond Latin America” (30.mai.2026)
  28. The Intercept — “Top Pentagon Official Admits Boat Strike May Have Killed Victims of Human Trafficking” (10.jun.2026)

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